sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Nem governismo cego e nem esquerdicídio



Por Renato Rovai, em seu blog:

Desde a eleição de Lula para presidente da República, em 2002, se acentuou uma disputa no campo progressista entre um setor que defende todas as ações do governo em nome da governabilidade e de um outro que apoiou Lula na sua primeira candidatura, mas que foi ampliando sua crítica às políticas adotadas pelo governo petista desde a reforma da Previdência, em 2003.

Essa disputa ideológica, porém, não é algo novo. O caso mais simbólico é o do Chile de Allende, onde o racha na esquerda deu discurso à direita mais violenta. Aqui no Brasil a situação é bem diferente, mas essa divisão às vezes fratricida não ocorre apenas desde o primeiro governo Lula. Alguns governos populares municipais já haviam sido bastante combatidos por setores da esquerda, um deles foi o de Luiza Erundina na prefeitura de São Paulo (1989-1992).

Naquela época, Erundina era criticada tanto pela esquerda quanto pela direita. E enfrentou duras greves que desgastaram sua administração por não conseguir conceder os aumentos salariais que os sindicatos de servidores reivindicavam. Também sofreu duro combate por conta do reajuste nas tarifas de transporte. E mesmo tendo tido à frente da sua Secretaria de Educação figuras como Paulo Freire e Mario Sergio Cortella, foi tratada como inimiga de classe por um sindicato dos professores municipais cuja diretoria à época fazia discurso de esquerda e que depois veio a apoiar Serra e Kassab.

A derrota daquele projeto político liderado pela atual deputada do PSB levou Paulo Maluf ao governo municipal. Aquela disputa entre governistas e esquerdicidas não levou em consideração o quanto a cidade perderia com aquilo. E a São Paulo de hoje tem muito a ver com os erros daqueles tempos.

Há quem ache que ser de esquerda é ter compromisso com a derrota, estar sempre replicando o discurso de que está se perdendo algo, que nunca há algo a se celebrar e conquistas a comemorar. E há quem ache que defender um projeto político que está no governo é dizer amém a tudo. Para um certo tipo de governismo os avanços não se constroem na polêmica, no debate e na disputa. E por isso alguns militantes petistas já estão tratando os ministros Kátia Abreu e Gilberto Kassab como companheiros.

Esses governistas tanto no ativismo digital quanto na militância partidária se tornaram patrulheiros do debate crítico e com essa postura fazem avançar posições inconsequentes de grupos e indivíduos que ignoram que na disputa política é preciso saber diferenciar adversários históricos de pontuais ou circunstanciais.

O recente episódio do reajuste da passagem em São Paulo é um tanto simbólico desse tipo de debate. O MPL tem o dever e o direito de criticar o aumento e buscar combatê-lo. É um movimento social cujo principal objetivo é atuar nessa questão. Ao mesmo tempo quando uma de suas lideranças dá uma entrevista como a que foi publicada no SpressoSP, onde afirma que é mais fácil criticar o Haddad do que o Alckmin porque o movimento é da cidade e que a sede da prefeitura é mais perto do que a do governo do estado para manifestações, isso demonstra o quanto há de incompreensão do que se disputa inclusive do ponto de vista da estrutura do transporte numa metrópole como São Paulo.

Se o MPL está mais preocupado com ônibus do que com metrô, por exemplo, isso é absolutamente contraditório com toda a pauta contemporânea quando se discute mobilidade urbana em grandes cidades. E se prefere combater mais Haddad do que Alckmin é porque não entendeu nem a pauta que disputa. Afinal, Haddad tem feito um governo muito mais atento as questões da mobilidade do que Alckmin e seu governo é muito mais permeável a esse diálogo.

Mas será que isso não esconde outra lógica. A de que é mais fácil bater em Haddad porque isso vira manchete nos veículos tradicionais e fortalece a ação de divulgação do movimento.

É triste ver como o esquerdícidio não se constrange em fazer alianças com a mídia tradicional de direita para derrotar projetos mais progressistas. E como se comporta como ursinho carinhoso quando governos de direita lhe derrotam. As demissões de funcionários do metrô e a reação tímida do Sindicato e de outros movimentos permitiriam uma boa análise desse tema.

Além disso, o esquerdicídio não permitiu que um movimento que obteve uma enorme vitória em 2013, conseguindo manter a tarifa de todo o transporte da região metropolitana de São Paulo e de outras cidades inalterada, tirasse proveito político dessa conquista. E ainda desprezasse completamente uma nova vitória que é a de garantir aos estudantes de escolas públicas o passe livre tanto em ônibus como nos trens e metrô. Evidente que os governantes só concederam esse benefício porque temiam uma nova mobilização organizada pelo MPL. E ao invés de gritar conquistamos, mas queremos mais, as lideranças do MPL têm preferido tratar essa vitória com desprezo.

O Brasil é um país muito mais complexo do que a divisão clássica entre esquerda e direita permite enxergar. Isso não quer dizer que não existam campos claros na disputa política e interesses econômicos imensos a alimentá-la. Por isso mesmo seria muito importante que movimentos que estão buscando a reorganização da esquerda e da suas pautas tenham sucesso. Seria fundamental inclusive que isso ajudasse aos governistas adocicados a repensar sua forma de atuação. O governo que se inicia foi eleito com base numa ampla composição política, mas ao mesmo tempo conseguiu reagir no segundo turno e mesmo no primeiro contra a candidatura de Marina politizando o debate pela esquerda. Isso não só não pode ser esquecido como ao mesmo tempo precisa ser sempre lembrado.

Evidente que não é uma tarefa fácil atuar politicamente nessas condições, mas se alguém esperava facilidades com a reeleição de Dilma não deve apenas responsabilizá-la pela sua frustração. Deve também levar em conta que ainda não entendeu direito o país em que vive. Aqui nunca foi fácil.

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