domingo, 16 de junho de 2013

José Reinaldo: A China, a paz e a cooperação internacional

Ao apreciar o desenvolvimento chinês e a evolução de sua posição internacional, temos presente que a situação internacional é fortemente condicionada pelo quadro de crise sistêmica, estrutural, crônica e multidimensional do capitalismo, um sistema incapaz de assegurar para os povos desenvolvimento econômico, progresso social, democracia, soberania nacional, paz, e sustentabilidade ambiental.

Por José Reinaldo Carvalho*

Estão em curso importantes transições e alterações nas relações de poder no mundo, emergindo nova correlação de forças e significativas mudanças econômicas e geopolíticas; manifesta-se a tendência à multipolaridade, o que pressupõe a incidência de contradições, o agravamento de conflitos e a intensificação da resistência e da luta dos povos. Surgem novos polos geopolíticos, como reflexo da emergência de novos blocos econômicos. Para conter essa tendência objetiva, amplia-se a ofensiva imperialista e neocolonialista em todos os planos, inclusive o militar. A situação internacional é marcada por crescente instabilidade e incertezas.

Segundo o Conselho Nacional de Inteligência dos Estados Unidos da América (EUA), os EUA vão continuar com sua hegemonia em declínio, e em 2030 a economia da Ásia deverá ser maior que a dos EUA e a da União Europeia somadas. A crise também golpeia fortemente os países europeus, acelera seu declínio relativo, revolve seu espectro político e abala o projeto de “integração” da União Europeia. E neste quadro se ressalta o caráter imperialista da Alemanha.

É nesse quadro que ganha relevo a ascensão da China, com seu prodigioso desenvolvimento das forças produtivas, seu vertiginoso crescimento e crescente papel nas relações internacionais.

A China, nos últimos 10 anos, superou Reino Unido, França, Alemanha e Japão, para tornar-se a 2ª economia do mundo, apenas atrás dos Estados Unidos. Em 2016, segundo previsão do FMI, ou em 2020, de acordo com previsão do Conselho Nacional de Inteligência dos EUA, a China será primeira economia do mundo.

É também nesse quadro que surgiu o grupo de países chamado Brics – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

O fórum Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) fortaleceu este traço da situação internacional, destacando-se a decisão de criação do banco de desenvolvimento do grupo, para financiar investimentos e apoiar a economia de seus países, e de outros países em desenvolvimento. Também de grande alcance foi a criação do fundo de reservas de divisas do grupo. Trata-se de um golpe significativo contra a hegemonia financeira, que sustenta os interesses imperialistas dos EUA, do Reino Unido e outras nações europeias que dominam a economia mundial e instrumentalizam o FMI e o Banco Mundial.

Hoje, os países do Brics acumulam mais da metade das reservas de divisas no planeta. Além disso, estas cinco nações são responsáveis hoje por mais de 21% do PIB global, fatia que pode dobrar em uma década. Têm, juntos, quase metade da população mundial (42%) e da força de trabalho do planeta (45%). Os acordos econômicos concertados pelos Brics visam a um reordenamento econômico e financeiro global, a construção de agendas próprias de desenvolvimento, fomentando o crescimento, a cooperação e o comércio fora – e contra – os ditames do imperialismo, criando condições para substituir o dólar pelas moedas nacionais dos Brics, e mobilizando recursos para financiar projetos de infraestrutura e o desenvolvimento sustentável.

Dentro dessa mesma configuração de contradições geopolíticas e econômico-financeiras, e do surgimento de disputas pela desconcentração do poder mundial, podem ser apontadas a constituição de outras alianças e blocos, compostos pelos Brics ou por parte deles, como a Organização para a Cooperação de Xangai (OCX) – que reúne a China, a Rússia e países vizinhos como Casaquistão e Uzbequistão –, o fórum de diálogo formado por Índia, Brasil e África do Sul (Ibas), os processos de integração da América Latina e Caribe, o G-77, as contradições no seio da OMC, a luta pela reforma e ampliação do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, assim como as contradições econômicas e geopolíticas no âmbito do G-20, que reúne as vinte maiores economias do mundo.

A China tem papel de destaque nesta luta. O seu fortalecimento como nação soberana, os esforços que faz para viabilizar as estratégias nacionais de desenvolvimento e a transição ao socialismo, as ações de cooperação internacional e em prol da paz, são aplaudidas por seus amigos em todo o mundo.

A República Popular da China, grande país dirigido pelo Partido Comunista, em transição ao “socialismo com particularidades chinesas”, desponta como importante país no cenário internacional, e objetivamente sua ação internacional conjuga as bandeiras da paz e da cooperação para o desenvolvimento. A China constrói, a passos largos, um país avançado e cada vez mais próspero. Os seus desafios atuais, a partir da realização do 18º Congresso do Partido Comunista, são a inovação científico-tecnológica, o desenvolvimento sustentável, com mais urbanização, política ambiental e qualidade de vida.

A política externa da China exerce papel de relevo na situação internacional. Sendo, como é natural, uma política voltada para a defesa dos interesses nacionais da China, empenhada em afirmar-se como um dos principais interlocutores em matéria de relações externas globais, e em tornar-se uma potência influente sobre os acontecimentos no seu entorno geográfico e no mundo, é um fator de equilíbrio que favorece a paz, o desenvolvimento, a cooperação e a desconcentração do poder mundial em um só polo hegemônico.

Fazendo um balanço retrospectivo, pode-se dizer de maneira sintética que a política externa da República Popular da China (RPC) registrou quatro fases em sua evolução e hoje vive uma quinta fase. A primeira foi marcada pela busca da segurança, no período que vai da fundação da RPC, em 1949, até 1960, quando eram fortes as ameaças provenientes do sistema imperialista. “Proteger a independência, a liberdade, integridade territorial e soberania, opondo-se a práticas imperialistas de agressão e de guerra” – assim a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês caracterizava os objetivos da política externa da nascente RPC em documento de 1949. Neste período, a China tinha como principal aliada a União Soviética. Em fevereiro de 1950, o presidente Mao firmou com Stálin em Moscou o Tratado Sino-Soviético de Amizade, Aliança e Mútua Assistência.

A segunda fase é marcada pela independência na ação externa, no período que corresponde à ruptura com a URSS. A terceira etapa conhece o ingresso da China nas Nações Unidas e o estabelecimento de relações diplomáticas com a maioria dos Estados nacionais. Na quarta fase, iniciada em 1978, concomitantemente à política de reformas e abertura ao exterior, a China expandiu programas de cooperação em busca de ajuda para os seus projetos de desenvolvimento. Neste período ganha relevo a relação bilateral com os Estados Unidos. Hoje, pode-se dizer que a política externa da China ingressa numa quinta etapa num mundo instável, marcado por incertezas e ameaças à paz e de busca pela estruturação de novos equilíbrios de poder. A política externa da RPC ganha contornos realistas e está inteiramente voltada para o fortalecimento do poder nacional chinês, para o que é indispensável um mundo de paz e equilíbrio de poder.

O novo secretário-geral do Partido Comunista Chinês (PCCh), Xi Jinping, prometeu ao assumir seu posto à frente do Partido Comunista e do Estado chinês, "uma abertura ainda maior" da China e assegurou que o auge do país não será produzido às custas de outros.

No discurso em que apresentou as linhas mestras da sua política externa, o novo líder chinês lançou uma mensagem de tranquilidade à comunidade internacional ao assegurar que a China está "comprometida com um desenvolvimento pacífico".

"Se a China ganhar, não quer dizer que os outros vão perder", assegurou o secretário-geral, que insistiu em que seu país "não é uma ameaça para o mundo".

Para cumprir suas metas de construção do país, a China assegurou que "se abrirá ainda mais em direção ao exterior".

Ainda de acordo com o novo dirigente chinês, considerados os problemas atuais do mundo, incluindo a situação econômica global, nenhum país pode resolvê-los por si só, sendo necessário “que nos mantenhamos unidos, que colaboremos para resolvê-los".

Para os povos do mundo, os países amigos, as forças progressistas, entre elas os partidos comunistas, é importante o desempenho do papel internacional da China, executando uma política exterior pacífica e independente, mantendo os objetivos de salvaguardar sua independência e a soberania, realizar os esforços por criar uma durável e ótima conjuntura internacional para a edificação moderna e a reforma e abertura do país, defender a paz mundial e promover o desenvolvimento conjunto.
É positivo para os amigos da China que ela decida por si própria as posições a adotar no quadro internacional, de acordo com o que considera certo e errado, justo e injusto, sem submeter-se a pressões de nenhum outro país.

É de suma importância que a política externa chinesa defenda a paz mundial. A China não pratica o expansionismo militar, se opõe ao hegemonismo de qualquer forma, à política de força, à agressão territorial, à intervenção nos assuntos internos de um país em outro, tendo como pretexto problemas étnicos, religiosos ou direitos humanos.

É igualmente proveitoso que o país mantenha relações amistosas e de cooperação com outros países, baseando-se nos cinco princípios de respeito mútuo à soberania e integridade territorial, não agressão, não intervenção nos assuntos internos de um país por parte de outro, igualdade e benefícios recíprocos e coexistência pacífica, sem tomar como norma diferenças de sistema social nem ideologia.

Também o fortalecimento da unidade e a cooperação com os países em vias de desenvolvimento reveste-se de grande importância no mundo contemporâneo. É com base nisso que a China desenvolve com o Brasil uma parceria estratégica proveitosa para ambas as partes e para fomentar a cooperação internacional.
*Editor do Vermelho e secretário nacional de Comunicação do PCdoB. Resumo da intervenção apresentada no seminário A China no século 21: Presente e Futuro, realizado na sede do Parlamento Europeu (PE), em Bruxelas, Bélgica, nos dias 6 e 7 de junho, uma iniciativa da Rede Correspondências Internacionais, da Fundação Gabriel Péri e do Grupo da Esquerda Unida-Esquerda Verde Nórdica no PE.



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