Falta identificar as forças beligerantes na guerra que se
trava em São Paulo, com baixas diárias que se aproximam das registradas em
conflitos internacionais. Aparentemente – e convém desconfiar das aparências –
o confronto se dá entre os bandidos e a polícia.
Por Mauro Santayana, em seu blog
Os bandidos, na versão oficiosa, vingam-se da sociedade que
os confina ao “executar” policiais militares em emboscadas. Há, no entanto, a
denúncia de que os policiais militares estão assassinando pequenos bandidos,
mas também pessoas trabalhadoras, a fim de atemorizar as organizações
criminosas dos presídios.
Isso, apenas nas duas capitais brasileiras mais populosas.
No interior do país, a situação é semelhante. Ainda agora, acabam de ser
identificadas três milícias em João Pessoa, compostas de policiais militares e
civis, acusadas de constituir um grupo de extermínio, de oferecer proteção a
homens de negócios e de extorquir os traficantes de drogas na Paraíba. Foram
presos 56 suspeitos, entre eles soldados e oficiais da PM, além de carcereiros e
policiais civis. A operação foi realizada por 400 agentes da Polícia Federal,
com o apoio das autoridades estaduais, e sob mandato judicial.
Nessa guerra os que morrem são sempre os mais pobres, e não
beligerantes diretos. Raramente um oficial é executado por bandidos. Em algumas
vezes são soldados desprotegidos, alvejados quando chegam do trabalho. Da mesma
forma, não são os capitães do PCC e de outras organizações semelhantes os
mortos, mas delinqüentes menores ou apenas trabalhadores inocentes, como parecem
ser os últimos fuzilados em São Paulo por um soldado que passeava com a sua
família e alegou haver respondido à ameaça dos mortos. Testemunhas afirmam que
se tratou apenas de uma disputa de trânsito – as vítimas teriam “fechado” o
carro do policial. Por terem assim agido, de acordo com as testemunhas, os
rapazes foram fuzilados pelo militar.
Quando alguém importante é vítima de um criminoso comum, a
sociedade se mobiliza. Quando os mortos são trabalhadores das favelas – ou
pequenos criminosos levados ao tráfico pela falta de educação, de estrutura
familiar sadia, e de empregos normais – a reação é quase nenhuma. Aqui e ali se
manifestam alguns altruístas, e, pouco depois, as execuções deixam de ser
notícia.
Quando houve, há seis anos, uma insurreição aberta de
bandidos em São Paulo, o então governador Cláudio Lembo colocou o dedo na
ferida, ao culpar pela calamidade “a elite branca e perversa” de seu estado. É
certo que a desigualdade social não é a única responsável pela violência urbana
-a cultura da violência, importada dos EUA pela televisão, tenha muito dessa
culpa- nem pelos crimes brutais que conhecemos. Bandidos há em todas as classes
e, provavelmente, os mais cruéis sejam os mais dissimulados, como os que atuam
em Wall Street.
Onde há mais justiça social há menos medo nas ruas.
* Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil,
diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi
redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais
brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista
político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.
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