domingo, 31 de março de 2013

A hora de FBC virar cangaceiro


Por Fernando Castilho, do JC Negócios, especial para o Blog de Jamildo.
Roberto Magalhães era candidato ao Senado e seu vice, Gustavo Krause, estava assumindo o governo de Pernambuco quando Fernando Bezerra Coelho comunicou a decisão de sair do PFL para o PSB de Miguel Arraes.
O primeiro time da política pernambucana conversou com Bezerra Coelho (não havia ainda a sigla pessoal FBC) e perguntou: O que ele iria fazer do outro lado? Ser uma espécie de jagunço de Doutor Arraes?
A todos com quem conversou Fernando contra-argumentou: Deste lado não tenho perspectivas. Estarei na fila de Marco Maciel, Roberto Magalhães, Joaquim Francisco, Ricardo Fiúza, Inocêncio Oliveira, entre outros.
Não ouviu os conselhos de gente mais velha (Fernando tinha apenas 28 anos e já fora líder do Governo Roberto Magalhães na Assembleia Legislativa), que insistiam: Bezerra Coelho era o melhor quadro que o campo da direita produzira depois de Nilo. Bem nascido, bem formado, articulado e com extraordinária capacidade de perceber o todo. Era membro de uma família com tradição de poder político, poder econômico. E era jovem, portanto, tinha tempo. De vários integrantes ouviu a mesma advertência: Nesse estado, a política não premia quem muda de lado.
Fernando foi.
Não foi só, porque saiu junto com seu pai, Paulo Coelho quando estava se desenhando o racha da família que naquele momento era liderada politicamente apenas pelo deputado Osvaldo Coelho.
Foi e ao longo dos anos viu a profecia dos caciques do PFL quase virar uma maldição. Não que tenha sido de todo ruim. Com o passar dos anos, ele passou a comandar uma banda do grupo político sertanejo dos Coelhos. Mesmo que tivesse em várias vezes batidos de frente com a outra parte de sua família liderada pelo velho Tio Osvaldo.
Numa delas, perdeu a Prefeitura de Petrolina para o novato Guilherme, filho de Osvaldo e escolhido para a disputa quase para não perder por W.O. devido à falta de quadros. Nesta eleição, tornou-se conhecida uma das mais hilárias histórias da política do Vale do São Francisco embora não se saiba se aconteceu de fato.
Ela diz que quando Fernando atacou Guilherme num palanque perguntando quem era aquele que chegava de fora e já queria ser prefeito de sua querida Petrolina, foi interrompido por um bêbado embaixo do palanque que teria fuzilado:
Conversa, Fernando, todo mundo sabe que Guilherme é teu primo.
Ao longo dos anos, no espectro político, Fernando Bezerra Coelho já foi quase tudo. Entrou no PSB de Arraes, no PMDB de Jarbas, no PPS de Roberto Freire, para onde foi junto com João Lyra, até voltar para o PSB de Eduardo Campos que herdara a sigla do avô.
Nessa peregrinação ele foi quase um hebreu no deserto servindo ao campo da esquerda. Ganhou e perdeu eleição em Petrolina até que veio para Recife virar secretário de Eduardo, mas sempre mirando no Palácio do Campo das Princesas que sempre julgou ser seu destino. Mudava de rota, mas não mudava de rumo.
Quando Eduardo Campos venceu a eleição, para quem trabalhou feito um escravo, Fernando recebeu a secretaria de maior visibilidade e certamente a que mais próximo deu-lhe condições de uma disputa com chances na majoritária.
Era bem diferente da candidatura de vice-governador para o qual foi escalado pelo velho Miguel Arraes que tentava um quarto mandato sabendo que iria perder. Desta vez, estava na vitrine de um Pernambuco apoiado por Lula que descobrira o governador Eduardo Campos gestor e se apaixonara por ele.
Fernando virou secretário e seu deu bem. Virou nome conhecido no estado todo. Prometeu mais indústrias do que qualquer outro podia prometer. E entregou boa parte delas ainda no primeiro mandato.
Virou figurinha carimbada em Brasília pela capacidade de lançar projetos e desenhar cenários. Lula não vinha ao Nordeste sem chamá-lo para estar presente ao lado de Eduardo Campos. Fernando virou um nome conhecido de Lula e até com trânsito no PT nacional.
Ah, no meio dessa conversa virou presidente do Santa Cruz e articulou com Ricardo Teixeira, uma complicada operação de resgate de Pernambuco à lista de cidades que poderiam sediar a Copa do Mundo de 2014 cuja realização de um jogo da Seleção Brasileira no Recife selou a candidatura da cidade.
Fernando Bezerra conseguiu viabilizar uma restauração relâmpago no Estádio do Arruda que fez a Fifa elogiar a organização. Fernando virou o FBC das torcidas organizadas, mesmo que o Santinha tenha continuado na terceira divisão.
Quando veio a campanha da reeleição de Eduardo Campos, FBC apostou tudo na vaga que hoje é de Armando Neto. Achava que Humberto estava eleito na vaga de Sérgio Guerra que decidiu ser deputado federal e que a de Marco Maciel poderia ser sua. Eduardo seria reeleito e a vaga no Senado lhe cacifaria para 2014.
Esqueceu-se de combinar com o governador. Eduardo costurou a chapa com Humberto e Armando Neto. FBC, mais uma vez, ficou na reserva lembrando a profecia dos caciques do PFL nunca verbalizada de fato: quem nasceu para jagunço não vira chefe de bando de cangaceiro.
Mas, Eduardo pagou-lhe a conta do sacrifício. Fez a presidente Dilma Rousseff dar-lhe um ministério onde poderia rodar o Brasil e o Nordeste. Era uma tranqueira com as confusões da Transposição e da Transnordestina, mas FBC com o passar dos anos tinha virado especialista nisso. Pouca gente discorda que FBC não seja um trator que roda 20 horas por dia, sete dias por semana. É verdade que não guarda dois minutos de segredo de ninguém se tiver uma notícia para dar a um jornalista. Mas, isso é típico dele. FBC realiza.
E ele estava trabalhando duro no Ministério da Integração quando Eduardo Campos entendeu de disputar a Presidência da República batendo de frente com sua chefe, Dilma. Está ficando difícil. Toda vez que Eduardo Campos sobe o tom, o pessoal do PT do Governo Federal olha para ele atravessado.
Mas, há duas semanas, um gesto de Dilma numa solenidade em Serra Talhada abriu o que, para muitos, era um cenário inimaginável antes de Eduardo virar candidato não declarado: Fernando Bezerra Coelho poderia virar candidato de Lula e de Dilma ao governo de Pernambuco.
O partido pode ser, inclusive, o dos Trabalhadores hoje esfacelado e sem condições de dizer um não a uma ordem de Lula, dentro de um projeto para dividir os votos de Eduardo na sua base. Lula que inventou Dilma Rousseff e inventou Fernando Haddad poderia inventar mais um. Dentro do pesado jogo que o ex-presidente está armando para vencer no Nordeste, FBC cairia como uma luva em Pernambuco.
Não vai ser uma travessia fácil. Mas, na medida em que Eduardo racha com Dilma vai ter um momento em que o PSB terá que desembarcar do governo e pode ser nesse momento que FBC desembarque do PSB. Pela legislação eleitoral, ele tem até outubro para decidir isso.
Feita hoje, a conta é absurda, mas não improvável no futuro. Afinal, FBC sabe que Eduardo Campos não vai dar-lhe a vaga de candidato a governador, porque sabe que ele não será um aliado incondicional e disciplinado. Não foi quando era subordinado a ele no Governo, enquanto secretário, tendo uma atuação independente. Por que seria com milhões de votos?
Além disso, a vaga, com Jarbas voltando do “caminho da perdição” ao campo da esquerda socialista, está fora da disputa na medida em que Jarbas deve percorrer o Brasil catando apoio para Eduardo Campos.
Sabe também que o PT de Pernambuco pode até estrebuchar com sua candidatura e reclamar muito, mas a perspectiva de poder com Dilma e Lula, e com FBC no governo, devolve ao partido a oportunidade de chegar aonde nunca chegou: o governo de Pernambuco com o aval de Dilma e Lula.
Tudo isso é especulação, mas Eduardo sabe que FBC não pretende pagar outra cota de sacrifício ao grupo que lidera. Sabe que na cabeça do ministro, ele já bateu sua cota de jagunço. E que para FBC talvez tenha chegado a hora de ele virar cangaceiro e dono de seu próprio bando. Naturalmente, contando que Eduardo Campos não vai muito longe com a candidatura a
presidente.
(postado por Sandro Ferreira)

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